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Seu iPhone pode lhe matar. Sério!

Unsplash image by Viktor Bystrov

Coisas muito mal feitas

Sua vida vale menos que quinze minutos do tempo de um bom programador dentro da Apple. Ao menos para a Apple e mais um monte de gente. Entenda.

O chacoalhão

Chacoalhar seu iPhone em 2007 para desfazer alguma ação enquanto caminha deslumbrado pelas ruas de San Francisco podia até parecer engraçadinho e divertido. Fazer isso em 2021 com um iPhone que custa 14 vezes o valor de um salário mínimo mensal no Brasil, principalmente se ele for arremessado ao chão durante o ato, pode ser bem o oposto disso (não que naquela época já não fosse).

Claro que havia uma solução melhor de interface que essa e a Apple, pensando agora apenas em iPhones gigantes, implementou. O resultado é que hoje, adicionalmente, você pode tentar tocar a tela com três dedos1 e esperar que o software entenda o mesmo que você e o hardware já tinham entendido durante o gesto.

Temporizadores

Agora, você já tentou em 2021 configurar mais de um timer2 no seu iPhone?

Tipo… Enquanto cozinha você precisa de um timer para o cozimento da cenoura e outro para o cozimento da abobrinha. Paralelamente você precisa saber quando já deu o tempo do seu filho precisar tomar outro remédio. Trivial, mas seu iPhone de US$ 2,700.003 nada pode fazer por você. Desde sempre só está disponível um timer para os felizes possuidores de iPhone.

Alarmes

A coisa pode ser ainda mais simples.

Imagine que na virada do ano você talvez queira configurar um alarme às 00:00 para saber quando abraçar e confraternizar com seus próximos. Tudo isso enquanto seu iPhone está filmando a alegria de um recomeço e uma nova etapa na história da humanidade que usa este calendário.

Você vai descobrir, da pior maneira, que o alarme assim que iniciar desliga automaticamente a gravação do vídeo sem nem lhe perguntar ou dar qualquer sinal que isso aconteceu. Você perdeu o registro desse momento e não tem como pedir pro mundo inteiro voltar à meia-noite pra regravar tudo de novo. A verdade é que não estamos num filme de Hollywood e nem todos nós em Las Vegas.

O alerta da morte

Indo um pouco mais além, deixando inúmeros outros exemplos de lado, chegamos finalmente ao alerta modal de bateria baixa4.

É o primeiro passo do seu filho. A primeira tentativa dele que pode mesmo dar certo. É emocionante. É lindo. É um momento único na historia dele, sua, e de todas as pessoas ali que o amam. Você quer mesmo deixar isso registrado para a posteridade. E merece ser registrado para a posteridade. É o seu filho. Nada mais importante que seu filho, certo?

Não para a Apple. Se você tiver um iPhone e quiser filmar o primeiro passo do seu filho, ou mesmo apenas tirar uma foto, é bom que sua bateria não esteja percentualmente engatilhada para mostrar o alerta da morte (que pode ser literal como explicarei adiante).

Chamada telefônica sim, alerta de bateria não?

Qual o critério afinal?

Chamada telefônica é tão cringe

Uma coisa que era perfeitamente normal em 2007: o anúncio de uma chamada telefônica ocupar a tela inteira e ter prioridade sobre todo o restante. Afinal o nome do dispositivo é iPhone. Era para ser um telefone. Lembram do que isso significava? Mas estamos em 2021 e eu acho bem melhor a solução atual onde a pessoa pode optar entre uma tela cheia ou apenas uma notificação.

Eu opto pela notificação. Quase não faço mais chamadas telefônicas convencionais, configurei meu telefone só para receber chamadas telefônicas de quem estiver na minha agenda e, mesmo assim, quando não estiver em algum modo de foco (o velho “não perturbe”).

Obrigado Apple! De coração. (Isso me dá até vontade de pagar quase oitocentos reais para ter o privilégio de poder colocar um app grátis em sua loja por mais um ano. Brincadeira, não dá vontade não.)

O termo “modal” é usado atualmente quando um software, neste caso suas apps, quer sua atenção para algo e jura de pé junto que não conseguirá de modo algum mesmo continuar se você não parar tudo que está fazendo na vida e no mundo e lhe der atenção imediata. É claro que a app é mais importante que tudo e quem fez essa coisa, digo, app, sabe mais sobre sua vida que você mesmo.

Mas existe algo pior que “modal”: é o “system modal”.

(Sim… Agora é que está começando o artigo de fato. Portanto acorde a pessoa ao lado porque agora é que vem a melhor parte!)

“System modal” é uma intervenção abrupta que exige sua atenção imediata e nada pode ser feito assim como o “modal” descrito anteriormente. Só que no nível do sistema! Sim… Seu celular é sequestrado completamente até que você responda5. O que também significa que nada mais em lugar algum do seu celular vai funcionar enquanto você não responder. Como já sabe, se fosse apenas “modal” era só fechar a coisa e destilar alguns adjetivos elogiosos aos criadores dessa praga. Digo, dessa app. Mas agora é o sistema operacional. O f sistema operacional!

O que fazer quando é o sistema operacional que trava sua vida inteira só porque ele se acha muito mais importante que você ou qualquer coisa que você esteja fazendo? Fico imaginando o que se passa pela mente de quem o idealizou para acreditar piamente que sua vida vale menos que uma bateria de um telefone estar aos 20% de acabar.

Quando é “apenas” um inconveniente

Ter de parar tudo na sua vida para dizer ao computador o que ele deve fazer para continuar algo tão corriqueiro pode ser inconveniente. (Sim, o seu iPhone é um computador, rodando UNIX ainda por cima. Ou seria por baixo?)

“Coloco em modo de economia de energia ou só deixo como está? Só para constar, nada pode ser mais importante neste momento em todo o universo do que você saber que estou com 20% de bateria e me dar atenção total imediata. Inclusive, gentilmente parei todo o resto nesse telefone enquanto voce não me responder, tá?” — diz seu querido iPhone (embora eu ouça a voz do Craig, meio que tossindo “disfarçadamente” às vezes).

Se fosse seu filhinho pedindo que você fosse até ao banheiro limpá-lo, faz parte da paternidade. Mas… Um telefone? É sério isso?

Quando pode ser fatal

Muitos de nós não podem desfrutar do “luxo” de ter um carro com Apple CarPlay de fábrica ou adaptar um sistema de som ou multimedia de terceiros no seu carro que torne essa funcionalidade acessível6. Só o que pode ser feito muitas vezes é comprar na farmácia mais próxima um daqueles suportezinhos de celular e o acoplar na saída de ar do seu carro (sim, na farmácia… já viram quanto custa isso na Apple Store do Brasil?). Lembrando que no Brasil muitas pessoas dependem de entregar comida em motocicletas, onde a adaptação é ainda mais complicada7.

Aí você coloca o Waze8 para rodar lá, que fala até português brasileiro bem e nem precisa mudar o idioma do seu celular inteiro pra isso, para te ajudar no caminho. E, só para constar: sempre achei que deveria ter sido a Apple a comprar o Waze; a app “Mapas” da Apple só deve funcionar direito nos quarteirões ao redor da casa do Tim Cook; ainda acho que um Forstall mais humilde ainda fez e faz falta nessa torta.

O problema é que, não importa que app de mapa você use, ao que parece nada do mundo é mais importante que os malditos 20%, 10% ou 5% de bateria do seu iPhone. Nem sua vida. Ele vai mostrar uma caixa de diálogo minúscula, com botões de ação minúsculos, propositalmente desenhados para não poderem ser apertados, muito menos facilmente. Muito menos com o carro em movimento. Muito menos com vidas envolvidas. A sua, as de quem está no seu carro junto a você, as dos que estão na estrada e as dos que estão em outros carros.

Várias pessoas podem literalmente morrer pelo fato de você genuinamente precisar saber se deve ou não sair da rodovia, mas o iPhone ainda assim quer que você dê atenção à coisa mais urgente e importante do mundo nesse momento: a porcentagem da bateria. Não pode ser uma notificação, não pode ser uma barra de status com outra cor.

Até o ícone ou porcentagem lá em cima piscando já resolveria. Mas o Tim e Craig acham que isso não importa, que sua vida não importa e precisam que você, talvez a 80 km/h9 ou mais , pare tudo, olhe para o telefone, tente apertar um botão que não quer ser apertado e corra o risco real de matar sua família, uma pessoa na rua que nem sabe o que é um iPhone e, é claro, você mesmo.

Quem pode fazer alguma coisa?

Ninguém!

Eu poderia dizer que você mesmo poderia, se parasse de comprar iPhone. Mas aí eu fico sem poder programar apps para iPhone (uma outra paixão minha desde que o Steve todo orgulhoso e fazendo piada de tiozão o lançou), tentando seguir as Human Interface Guidelines que a própria Apple não segue, tentando servir e ser útil da melhor maneira possível à pessoa a quem de fato presto serviço e quero ver toda feliz e satisfeita: o usuário que precisa, baixa e usa uma app e, no final, é quem paga, não só financeiramente, toda a conta e todo o rodar das engrenagens dessa indústria trilionária.

Pedir para usar o outro sistema operacional10 (infelizmente e ainda o único concorrente) seria algo ainda pior. E ficar sem celular em 2021 é quase como se desconectar totalmente do mundo à sua volta. (Talvez não fosse má ideia, pensando bem.)

Quanto vale a vida?

Insistentemente, ano após ano, repito apelos para que algo seja feito.

“Não deve ser tão difícil”, imagino eu conversando com os semideuses. “Coloca aí o código na minha mão! Eu até sei mais ou menos o que alterar e onde”, devaneio11.

Sim… É muito provável que leve mais tempo para encontrar onde está, e depois passar por toda burocracia gigante (automatizada ou não, necessária ou não). Codificar e mudar isso para uma notificação não deve mesmo levar nem uns quinze minutos.

O que faz chegar a triste conclusão de que, no fundo, sua vida não vale nem quinze minutos de um dos elfos programadores dentro da Apple. E nem precisava ser elfo. Até porque cada um dos integrantes da Apple, não importa em que posição achem estar, são exatamente pessoas assim como você e eu. Com as mesmas dificuldades e com as mesmas capacidades. Da mesma forma que nem você nem eu somos melhores que ninguém lá, ninguém lá é melhor que você ou eu.

Sorry for the inconvenience…

Mas, falando dos que se comportam como elfos ou semideuses: num desses anos tentei ver se alguém mais influente no Olimpo se sensibilizava e fizesse chegar a mensagem a quem pudesse ao menos considerá-la. Um desses semideuses certa vez concedeu-me a graça da sua resposta, dizendo que marcar pessoas aleatórias no Twitter não faria nada mais que incomodá-las inutilmente. Bem, o que é incômodo para você, meu querido cínico, pode significar evitar a morte literal de outra pessoa tão pessoa quanto você. (Ah, e essa admoestação carinhosa vale também para vocês, Phil Schiller, Craig Federighi e Tim Cook.)

Enfim… Feito este “pequeno” desabafo com uma infinidade de footnotes, sarcasmos e ironias, bastante válidas entretanto, devo dizer que o assunto é mesmo sério. E gostaria que vocês atentassem para isto. O quanto uma interface mal feita não só pode trazer uma experiência ruim a pessoa que a usa. Pode, de fato, matá-la. E não há empresa no mundo, dispositivo no mundo, sistema operacional no mundo que valha mais que a vida de uma pessoa.

 


  1. Tente fazer isso num iPhone SE, primeiro modelo. Sim… Eu sei que é triste, Phil Schiller, as pessoas não comprarem sempre os últimos modelos de dispositivos da sua long fellow, Apple: claro que elas fazem isso só porque são chatas. 

  2. Até onde eu vi a Apple não traduziu isso para português brasileiro, mantendo o termo em inglês. 

  3. Sem capinha, sem carregador e sem Apple Care. 

  4. Seja lá 20%, 10%, 5% ou que número a Apple ache que deva ser. 

  5. Ou reinicie o celular. O que é bem rápido, só que não, né? 

  6. Desculpe novamente, Phil Schiller. 

  7. Ah, vocês sabiam que tem uma empresa (que diz não trabalhar no ramo de entregar comida e que não teve criatividade para criar nem mesmo um nome) que acha que entregadores de comida, funcionários não reconhecidos seus, não merecem estar na “casta” de pessoas que possuem iPhone? Será que eles acham que só quem pode pedir comida neste país merece usar iPhone e quem entrega essa mesma comida não? Seja lá como for, pergunte a um desses funcionários do… você sabe o nome… se a app para entregadores roda no iOS. Aproveite e pergunte sobre toda a rede de seguridade que eles não têm. 

  8. Que vai vender até minha respiração para anunciantes e cada localidade minha para os governos. 

  9. “Quilômetros por hora”… Sim, eu sei que é um negócio muito maluco, muito difícil de entender para certa parte do mundo. Para a outra parte é o que se usa para medir a velocidade de um veículo. E olha que “disruptivo” e “inovador”: 10 milímetros viram 1 centímetro; 100 centímetros viram 1 metro; 1000 metros viram 1 quilômetro. Como ninguém pensou nisso antes? 

  10. Aquele que foi comprado pelo Google para virar cópia do BlackBerry quando entenderam que estavam olhando na direção errada e então resolveram copiar o iOS (que na época era conhecido como Mac OS X rodando em celular e no ano seguinte foi nomeado iPhone OS). 

  11. Quem sabe no dia em que Apple a me “deixar” morar onde eu quero morar e não onde ela queira que eu more?